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Plano de modernização industrial da China levará mais tempo

Será realmente difícil chegar lá em 2025 por causa dos impactos negativos dos três anos de pandemia que afetaram bastante o setor industrial chinês, mas isso não impedirá o país de continuar na direção planejada

Tanta robótica instalada aumentou no ritmo de quase tudo o que o país decide fazer – aos saltos: de 69 mil em 2015 para 156 mil em 2017

Lustrosas bolas de cristal estão em febril atividade no mundo inteiro, em “think tanks”, entidades empresariais, governos, universidades, na maioria das empresas que trabalham com a China, e em toda a mídia especializada, tentando descobrir os cenários possíveis para a China nos próximos anos, e as tendências nos diversos segmentos da economia, a partir das definições do Partido Comunista (PC) chinês, em seu 20º Congresso quinquenal, realizado entre 16 a 20 de outubro.

Decifrar o longo relatório (69 páginas) apresentado pelo presidente Xi Jinping na abertura do evento, dia 16, com as realizações do período que se finda e as propostas para o próximo, é uma árdua missão, até para quem está acostumado a pesquisar significados nas entrelinhas de discursos de dirigentes chineses, e a captar as nuances de acordo com o que se sabe do ambiente político no país – dificultadas sempre por traduções literais do mandarim para o inglês ou o português.

Coincidem as definições estratégicas do PC chinês e o terceiro mandato do presidente Xi Jinping com as eleições no Brasil, e a reiterada disposição do presidente eleito de reindustrializar o país e de melhorar as relações políticas e comerciais com a China. Portanto, cabe agora saber como se darão essas duas mudanças substanciais, já que a China está a léguas de distância do Brasil em questões decisivas, a começar pela malha ferroviária (cinco vezes maior; somente as linhas de alta velocidade já superam a extensão total da brasileira), e culminando no emblemático projeto de modernização industrial “Made in China”, o primeiro degrau significativo do Plano de Ciência, Tecnologia e Inovação, aprovado em 2015, e em vigor até 2050 (coincidindo com os 100 anos da fundação da República Popular da China). A intenção, anunciada há sete anos, era a de acabarem com o “feito na China, por empresas estrangeiras”, para o novo patamar “fabricado por empresas chinesas”.

Será realmente difícil conseguirem chegar lá em 2025 por causa dos impactos negativos dos três anos de pandemia que afetaram bastante o setor industrial chinês, reduzindo a velocidade dos avanços. Mas não a impediram de continuar na direção planejada, conforme comprova o estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), publicado em setembro de 2022: a China mantém sua condição de maior exportadora do mundo da indústria da transformação, com 18,4% de participação, seguida de longe pela Alemanha (8,6%) e Estados Unidos – EUA (8,1%), e muito à frente do Japão (3,9%), Hong Kong (3,6%), Países Baixos (3,4%), Itália (3,2%), Coreia do Sul (3,1%) França (2,9%), Taiwan e México (2,4%), Reino Unido (2,2%), Cingapura, Índia e Suíça (2,1%). A soma da China, Hong Kong e Taiwan resulta em 24,5%; e é de 35,8% o total asiático de participação nas exportações mundiais da indústria.

Com a sétima maior população do mundo e o nono maior PIB, o Brasil aparece nesse ranking em 31º lugar, com 0,8% do bolo mundial. Fraco nas vendas internacionais, menos pior na produção: com 1,3% do total mundial de valor adicionado da indústria da transformação, o Brasil garantiu o 15º lugar em 2021. E a China novamente o 1º lugar, do alto dos seus 30,4% de participação, quase o dobro dos EUA (16,7%), e do Japão (7%), Alemanha (4,7%) e Índia (3,1%) somados.

Outros indicadores confirmam os avanços qualitativos da indústria chinesa, como o ranking 2022 da inovação mundial, no qual a China atingiu o 11º lugar, com 55,3 pontos (em 2012, estava em 34º, com 45,4 pontos). O Brasil, nesse ranking, figurava em 58º, em 2012, com 36,6 pontos; e em 54º, em 2022, com 32,5 pontos. Dado também revelador é o da instalação de robôs – em 2021, foram 243 mil na China (44% a mais que em 2020), metade do total instalado no mundo. Tanta robótica instalada aumentou no ritmo de quase tudo o que o país decide fazer – aos saltos: de 69 mil em 2015 (25º mais automatizado no mundo, com 49 robôs por 10 mil trabalhadores), para 97 mil em 2016, 156 mil em 2017… Dessa forma, em 2020 alcançou o 9º lugar no mundo, com 246 robôs por 10 mil empregados – em números absolutos, o país tinha em 2021 mais de um milhão de robôs em operação.

Investir tanto em automação, precisando gerar 10-12 milhões de novos empregos por ano parece enorme contradição. E não deixa de ser, olhando-se no curto prazo. Mas a médio prazo não é, pela grande redução esperada, da parcela da população chinesa em idade ativa (PIA), resultante do envelhecimento acelerado – a previsão de pessoas idosas (65 anos de idade e mais) na China é de passar dos atuais 220 milhões de habitantes para 350 milhões (25%) em 2030.

Reindustrializar o Brasil é fundamental para gerar empregos de qualidade, absorvendo a mão de obra altamente qualificada que sai todos os anos dos institutos federais e universidades. Conforme isso aconteça, o país entrará em um patamar melhor de desenvolvimento econômico. Foi assim na China nos últimos 30 anos. Quem acompanhou de perto esse período, sabe que a China passou da fase de indústrias de mão de obra intensiva (e barata), para produtos com mais tecnologia, com trabalhadores ganhando muito melhor: de 1990 para 2021, a renda per capita na China (pela paridade do poder de compra, em US$ corrente), passou de US$ 981,40 para US$ 19.338,20. Pelos mesmos critérios, a renda per capita no Brasil saiu de US$ 6.693,60 para US$ 16.056. Apesar do aumento do poder aquisitivo de quem trabalha nas indústrias chinesas, os seus produtos chegam pelo menos 30% mais baratos do que os da Coreia, Japão, Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido – e isso somente é possível graças à sua lógica econômica própria, com estrutura de custos menor do que a dos países concorrentes, e à sua formidável malha ferroviária, ligando todas as cidades do país, mais dezenas de portos marítimos eficientes e gigantesca frota. 

Será realmente difícil chegar lá em 2025 por causa dos impactos negativos dos três anos de pandemia que afetaram bastante o setor industrial chinês, mas isso não impedirá o país de continuar na direção planejada

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