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Como surgiu a primeira vacina — e os primeiros ‘antivaxxers’ do mundo

Uma elegante casa de época escondida entre árvores ao lado de uma igreja, em uma pacata vila inglesa, abriga um museu médico pouco conhecido.

Há mais de 200 anos, a construção no estilo rainha Ana (arquitetura barroca ‎‎inglesa‎‎) era a casa de um humilde médico do interior. Com sua coleção simples de artefatos em armários de vidro, parece mais uma atração turística condenada à obscuridade.

Mas agora que os museus do Reino Unido estão reabrindo com o fim das restrições impostas pela pandemia de covid-19, a casa do doutor Jenner (Dr Jenner’s House) em Berkeley, à beira de Gloucestershire Cotswolds, se prepara para receber um grande número de visitantes.

Isso porque foi aqui que a ciência da vacinação começou. Você pode entrar no galpão do jardim onde Edward Jenner deu a primeira vacina do mundo no filho de oito anos de seu jardineiro em 1796. É o começo da ciência que ajudou na luta global contra a pandemia de covid-19.

Antes da pandemia, a casa era a terceira mais popular da vila (depois do castelo medieval em que Eduardo 2º foi assassinado e uma fazenda). Pós-covid, ela pode se tornar uma grande atração internacional.

Os visitantes podem ver o escritório à luz de velas atrás da escada, onde as anotações científicas e desenhos de Jenner rabiscados com uma caneta de marfim estão em sua mesa redonda coberta de baet, um tecido de textura felpuda.

Foi aqui que ele criou a palavra “vacina”. Na parede há uma pintura a óleo contemporânea de Blossom, a vaca. Ela foi tão central em seus experimentos que Jenner usou “vacca”, a palavra latina para “vaca”, para descrever o que havia descoberto: a vacinação.

Blossom, uma grande vaca leiteira marrom de Gloucester, foi a fonte da infecção original de varíola bovina usada para criar as primeiras vacinas do mundo.

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A história é heroica na sua simplicidade. Reza a lenda que Jenner estava muito preocupado com os surtos locais de varíola, um dos vírus mais perigosos que os humanos enfrentaram, com uma taxa de mortalidade de cerca de 30% e uma terrível desfiguração permanente dos sobreviventes. O pátio da igreja ao lado de seu jardim abriga túmulos de muitas vítimas contemporâneas.

Uma ordenhadora teria dito a Jenner que não estava preocupada em pegar varíola — porque já havia contraído a “varíola bovina” muito mais leve de suas vacas. As ordenhadoras locais sabiam que quem contrai varíola bovina nunca mais tem varíola.

Na época, a classe médica estava tentando entender as teorias emergentes de inoculação. Isso envolvia simplesmente injetar uma dose de uma doença real, como acontece hoje em dia nas “festas de catapora” — em que os pais reúnem seus filhos para transmitir deliberadamente a infecção quando bem novos para garantir imunidade contra casos posteriores, que podem ter consequências muito mais sérias.

Os primeiros inoculadores simplesmente injetavam a doença completa nos pacientes quando eles eram jovens e fortes, na esperança de que fossem sobreviver e ficar imunes depois.

Getty ImagesJames Phipps, de oito anos, primeiro paciente de Jenner, sobreviveu à vacina experimental

Jenner se inspirou nos comentários da ordenhadora para conceber uma solução muito melhor: uma injeção inofensiva, mas eficaz, para gerar imunidade. Ele levantou a hipótese de que, se ele desse varíola bovina leve às pessoas, isso estimularia algum tipo de sistema de segurança interno a proteger as pessoas contra a varíola humana.

Em uma era na qual ainda se recorria a sanguessugas e purgantes de mercúrio, este era um conceito revolucionário. Ninguém sabia nada sobre sistemas imunológicos. De muitas maneiras, Jenner estava séculos à frente de seu tempo.

Não se sabe se seu primeiro paciente, James Phipps — o filho de oito anos do jardineiro — se ofereceu ou sequer sabia no que estava se metendo, mas Jenner levou sua contribuição a sério.

O menino sobreviveu ao processo, ficou imune à doença mortal que circulava na região e provou uma teoria que salvou milhões de pessoas.

Jenner demonstrou a gratidão do mundo a James, dando a ele uma casa. Os visitantes podem caminhar por um trajeto arborizado da casa de Jenner para ver a Phipps Cottage, agora uma casa particular marcada por uma placa na Church Lane.

Primeiros antivacinas

Num canto de seu próprio jardim, Jenner nomeou o galpão em que aplicou a injeção em James de “O Templo de Vaccinia” e passou a se considerar um “fiel sacerdote da vacinação”.

Surpreendentemente, esta estrutura peculiar de pedra, cascas de árvore e palha ainda existe. Talvez devesse se tornar um santuário para os milhões que a imunização salvou de tantas doenças desde então, incluindo a varíola (agora completamente erradicada graças às vacinas), poliomielite e, claro, a covid.

Quando a notícia da cura milagrosa de Jenner para a varíola se espalhou, filas de trabalhadores rurais pobres se estenderam do galpão até o cemitério. Jenner aplicou as doses para salvar vidas de graça, declarando que seria “imoral” lucrar com isso.

Ao ver sua flauta, livros de poesia e desenhos de cucos, os visitantes não podem escapar da impressão de que Jenner, o oitavo filho do vigário de Berkeley, era um homem curioso da era Georgiana, bem-intencionado e abertamente excêntrico.

Por exemplo, ele conheceu sua futura esposa quando acidentalmente pousou seu balão de ar quente no jardim dela.

Também pegou secretamente uma muda de uma videira pertencente a Capability Brown, um famoso jardineiro e arquiteto paisagista inglês do século 18, em Hampton Court, para plantar em sua estufa, que agora está completamente preenchida pela videira.

Como era de se esperar, Jenner foi ridicularizado por médicos “especialistas” ricos de Londres que não conseguiam acreditar que um médico rural havia feito um avanço tão importante.

Desenhos satíricos contemporâneos mostravam pessoas injetadas se transformando em vacas. Foram os primeiros antivacinas do mundo protestando contra a nova ciência.

Demorou um pouco para o sistema dominante perceber o significado de seu trabalho. O Parlamento acabou erguendo uma estátua de Jenner em Trafalgar Square em 1858 — mas após protestos antivacina, ela foi transferida para o Kensington Gardens, mais afastado, quatro anos depois.

Museu quase fechado

O fundo de caridade privado que administra o museu quase fechou quando as medidas de isolamento impostas devido à pandemia de covid-19 acabaram com suas receitas.

“Fomos ameaçados com perda completa de renda indefinidamente”, diz o gerente do museu, Owen Gower, o único funcionário em tempo integral.

Uma campanha de financiamento coletivo online organizada às pressas chamou a atenção de simpatizantes em todo o mundo e rapidamente levantou mais de 40 mil libras (cerca de R$ 280 mil) em doações. Foi o suficiente para manter a casa aberta.

Ainda existem muitos ativistas antivacina hoje, mas a importância das doses contra covid fez com que Jenner seja cada vez mais lembrado.

“Ficamos impressionados com a generosidade das pessoas ao redor do mundo”, afirmou Gower.

“As doações individuais ainda estão chegando. Isso nos permitiu começar a fazer planos para o futuro.”

“A pandemia ressaltou a importância da vacinação. Queremos não apenas atualizar as exibições e reformar a casa — mas desenvolver nosso programa educacional e ter uma presença internacional online.”

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A fundação não tem financiamento do governo e depende da venda de ingressos. Uma equipe de 35 voluntários locais mantém a casa e o jardim. Uma parte da residência é alugada como um apartamento privado para gerar renda. Isso inclui o antigo quarto do doutor Jenner.

O sucesso do financiamento coletivo sedimentou a confiança dos administradores para repensar o futuro da humilde atração histórica. Agora ela pode se dar ao luxo de contratar consultores e abordar grandes patrocinadores.

“Poderíamos fazer muito com esse dinheiro”, diz Gowen, que é formado em História de Berkeley.

“O financiamento coletivo foi impressionante, mas não podemos depender de doações individuais para sempre. Agora precisamos achar grandes financiadores.”

Os planos futuros incluem a criação de um centro internacional sobre o desenvolvimento da teoria da vacinação.

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A administradora do museu, Gabriella Swaffield, vê um futuro positivo para o local.

“Em cinco anos, sem dúvida será um museu próspero que recebe visitantes de todo o mundo para contar a importante história do início da vacinação e de seu fundador pioneiro Edward Jenner.”

Swaffield, gerente de museus da histórica Charterhouse em Londres, ingressou no The Jenner Trust, no auge da pandemia, em junho de 2020.

“Parecia o momento oportuno para combinar minha paixão por museus e divulgar a importante mensagem da vacinologia”, disse ela.

“O museu merece mais reconhecimento. É um museu fascinante com belos jardins, que contam uma história tão incrível que afetou todas as pessoas de uma forma ou de outra nos últimos anos.”

Quando o mundo começou a perceber o quão importante era a invenção de Jenner, os elogios começaram a surgir. Embora nunca tenha lucrado com a vacina, talvez valorizasse alguns dos comentários mais do que qualquer recompensa financeira.

O então presidente dos EUA, Thomas Jefferson, escreveu diretamente para Jenner em 1806 dizendo que “a humanidade jamais pode esquecer que você viveu”.

Gower e os moradores de Berkeley estão tentando garantir que isso nunca aconteça.

Você pode ler a versão original deste artigo (em inglês) no site BBC Travel.

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