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As repercussões da paralisia da segunda maior economia mundial preocupam analistas de todas áreas

Ainda que Shanghai seja importantíssima, ela não é a única cidade da China fechada

Bateu uma enorme preocupação no Brasil, e com certeza também na Argentina, e em outros países grandes exportadores de commodities para a China, com os sinais de fumaça que saem de lá, desde o final de março, quando começou o “lockdown” em Shanghai, estratégia do governo chinês de “tolerância zero” com a Covid-19. Essa política de saúde pública levou ao fechamento da cidade mais populosa (25 milhões de habitantes, segundo o Censo 2020) e mais rica do país, maior centro comercial e financeiro, e sede do maior porto de containers do mundo.

Ainda que Shanghai seja importantíssima, ela não é a única cidade da China fechada, total ou parcialmente, nos quatro primeiros meses de 2022 – seriam 20 a 30 delas, com um total de 190 milhões de pessoas, ou até 46 localidades e 400 milhões de pessoas, de acordo com a fonte utilizada pela imprensa internacional. Na falta de informações oficiais, proliferam as estimativas. O que se sabe sobre a política “Zero Covid” é que ela começou a ser colocada em prática em dezembro de 2021, com o “lockdown” na cidade histórica de Xi’An, capital da província de Shaanxi, 13 milhões de habitantes (população maior do que a de São Paulo), e, em março de 2022, as cidades de Changchun (capital da província de Jilin) e Jilin, mais 13 milhões de pessoas dentro de casa. Entre um e outro fechamento, realizaram em fevereiro as Olimpíadas de Inverno.

Análise realizada pela Universidade de Medicina Johns Hopkins, dos 20 países com maiores taxas de mortalidade por Covid-19 no mundo dá razão à China: ela está em 20º lugar, com 1,2 mortes por 100 mil habitantes. A performance positiva dos países asiáticos no enfrentamento da pandemia é confirmada ainda pelo Japão (23,4), Índia (38), Tailândia (41,2), Coreia do Sul (44,9), Filipinas (55,1) e Indonésia (56,5). No extremo oposto estão o Brasil (312,3) e os Estados Unidos (301,7), respectivamente primeiro e segundo lugares no ranking, com 27% do total de mortes por Covid no mundo (6,2 milhões).

Há quem acredite que devido à política “Zero Covid”, o crescimento do PIB chinês não alcance a meta do governo, de 5,5% em 2022, com previsões de até 4,5% (Goldman Sachs). Um ponto percentual do PIB chinês (US$ 17,7 trilhões, pela paridade cambial, em 2021) equivale a US$ 177 bilhões. Só que a preocupação mundial não é essa possível redução. O que está alvoroçando analistas de todas as áreas são as repercussões da paralisia (por quanto tempo?) da segunda maior economia mundial, maior exportador e segundo maior importador. O temor de quem exporta para a China é a redução dos volumes importados, por dificuldades no transporte marítimo (atrasos e fretes mais caros) e queda da demanda. E quem importa da China vive hoje a mesma angústia com sinal trocado, com o risco adicional de preços maiores, difíceis de serem repassados em países como o Brasil, no qual o desemprego, a inflação, e os juros altíssimos estão causando significativa retração dos consumidores.

Preocupam ainda a depreciação da moeda chinesa, de 6,36 por dólar para 6,61, de 4 de abril para 4 de maio; a compra pela China de óleo e gás da Rússia, em fevereiro (US$ 117,5 bilhões); a possibilidade de aumento do desemprego no país (tanto dos migrantes que ainda não voltaram de suas cidades, como dos quase 11 milhões de jovens universitários que entrarão no mercado de trabalho a partir de agosto); o aumento das pressões da União Europeia sobre a China via Organização Mundial do Comércio (OMC) e como o país reagirá; os reflexos econômicos e comerciais da relação atual da China e Rússia – e desta com boa parte do mundo, a partir das sanções impostas pelos Estados Unidos, devido ao ataque russo contra a Ucrânia, elevando os riscos para o abastecimento alimentar mundial este ano, e até de uma guerra de grandes proporções, que se sabe como começa e nunca como terminará.

Se não são suficientes os sinais de fumaça, há ainda no horizonte chinês, para o final de outubro, a realização do 20º Congresso do Partido Comunista, evento da máxima importância para os destinos do país – e, por extensão, do restante do mundo –, que esse ano está tensionado por um fator inédito: a possibilidade de um terceiro mandato para o presidente Xi Jinping, ora sob fogo de artilharia nacional e internacional por causa da política “Zero Covid”, e reagindo com a proposta de investimento em infraestrutura (como foi feito com sucesso em 2008, em resposta à crise financeira iniciada nos Estados Unidos), para gerar os empregos necessários e manter o crescimento do PIB dentro do previsto.

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